

Desde o momento que Saulo Faria Almeida Barretto se apresenta, é inegável: ele é o trabalho e o trabalho é ele. E não há nada de mal nisso, já que quanto mais este Sergipano de ideais para lá de ousados trabalha, mais gente sai ganhando. “Não tem problema na nossa mão que a gente não resolva.” É assim que ele introduz o Instituto de Pesquisa em Tecnologias e Inovação (IPTI) – uma organização privada, porém sem fins lucrativos. O co-fundador do instituto, logo brinca: “Eu sou sergipano mesmo”, diz ele. “Sei que é difícil acreditar, mas nós existimos.” E na brincadeira ele já demonstra sua aspiração: colocar Sergipe no mapa-múndi.
Barretto é graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Sergipe. Em 1987 se mudou para São Paulo para realizar seus estudos de pós-graduação na USP. Nesse período, passou um ano na Alemanha. “Na universidade, inovação era só no papel,” comenta. “Ao invés de colocar os planos em prática, as pessoas procuravam ver o que podia dar errado.” E quase que como uma resposta a essa forma de pensar com a qual nunca concordou, finalmente em 1997, nasceu a idéia de um centro de pesquisa na região nordeste do Brasil.
O IPTI foi fundado em 2003 em sociedade com Renata Piazzalungo, que hoje é a diretora-presidente do Instituto. “No começo, eu investia o salário que eu recebia da UMC [Universidade de Mogi das Cruzes], até ganhar os primeiros projetos,” comenta Barretto. Hoje em dia, o Instituto depende de investimentos. “É como um filho: quando está bem a gente vibra, quando vai mal a gente sofre.” A missão do IPTI é nobre: promover, continuamente, um ambiente favorável à pesquisa e à inovação, por meio da associação de atores multidisciplinares, com vistas a oferecer soluções integradas entre tecnologia e processos humanos. O instituto atua em três áreas principais – educação, saúde pública e economia criativa – por meio de uma variedade de projetos. “É um modelo sistêmico de desenvolvimento,” completa Barretto.
The Human Project
Em dezembro de 2006, o IPTI iniciou diálogos com o Governo de Sergipe para a criação do The Human Project. Embora pareça, pelo nome, não se trata de um projeto, e sim de um conceito de como arte, ciência e tecnologia podem ser vetores da promoção de desenvolvimento social e econômico. E é a partir desse conceito que são criados projetos sustentáveis nas áreas de economia, saúde e educação.
A sede da iniciativa se instala em Santa Luzia do Itanhy, especificamente no Povoado do Crasto. “Nós estamos desenvolvendo tecnologias sociais, de interação com a comunidade,” conta Barreto. A ideia para o futuro é replicar as tecnologias desenvolvidas, customizando o modelo de acordo com as realidades específicas de cada município.
O IDH de Santa Luzia era o segundo mais baixo de Sergipe. Ainda assim, o Povoado do Crasto é uma região com o potencial enorme de desenvolvimento, já que tem um ativo natural, quase inexplorado. Uma das bases do The Human Project é economia criativa. Ou seja, a fusão do design contemporâneo com técnicas artesanais. “Além de gerar renda, a economia criativa muda a relação que o artesão tem com os recursos locais. Ele começa a ver o material local como sofisticado, percebendo o valor ao seu trabalho.”
As iniciativas do The Human Project são criadas para solucionar questões apontadas por projetos anteriores, o que dá o caráter sistêmico ao IPTI. Por exemplo, para solucionar os problemas de educação foi necessário olhar para questões de saúde pública e questões pessoais dos estudantes. Isso foi feito com auxilio de tecnologia de ponta. Um software chamado ENCER, desenvolvido pela equipe, foi usado para diagnosticar problemas de aprendizagem e intervir preventivamente. Simultaneamente, atendentes públicos, através do projeto tecnologia social Hb, identificaram aquelas crianças que sofriam de anemia nas 23 escolas do município. “É o tripé do IPTI – economia criativa que é dependente de educação que está diretamente relacionada à saúde pública,” diz Barretto. A idéia é que somente agindo nessas três áreas é possível ter resultados verdadeiramente positivos.
O futuro: planos e sonhos
Quando é perguntado por que criou o IPTI, Barreto responde: “Fui privilegiado durante toda a minha vida. Nunca precisei pagar pela minha educação – até ganhei bolsa. Agora posso devolver de forma construtiva tudo o que a sociedade investiu em mim.” O próximo projeto, já em andamento, é a construção do Museu Guigó, em Santa Luzia do Itanhy. O museu será um importante espaço científico-cultural, que tem como objetivo incentivar o desenvolvimento social e econômico do território. “Creio que também seja uma forma de colocar Sergipe no mapa de tecnologia social,” ele diz esperançoso.
Há anos, Barretto realiza projetos nas áreas de educação, tecnologia, saúde e arte, com cabeça de alemão no mangue do nordeste. Para quem nunca gostou de caridade, ele encontrou a maneira perfeita de fazer uma contribuição positiva no mundo. “Desde pequeno um dos meus sonhos é que a minha passagem pela Terra deixe um legado. Hoje, posso dar sentido para a minha vida de uma forma que não podia antes.” Ainda há muitos projetos a serem desenvolvidos; muitas comunidades a serem melhoradas. Como ele diz: “Viver é transformar”.